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NOSSA UNIÃO COM O PAI E O FILHO.
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Reflexão para o 4 º. Domingo da Páscoa

Leituras: Atos dos Apóstolos 13, 14 . 43 - 52; Sl 99;
Apocalipse 5, 11-14;;
João 10, 27-30..

       Nós, seres humanos, conhecemos diversas formas de união, desde as mais superficiais (como a parceria passageira para resolver alguma questão), às mais intensas (como o vínculo do amor conjugal, que faz de duas pessoas como que “uma só carne”). Ultrapassa, porém, os limites do nosso entendimento, a união profundíssima que une Jesus a Deus, seu Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). De fato, só o Espírito Santo, que perscruta tudo, até mesmo as profundezas de Deus (1Cor 2,10) e que participa, Ele mesmo, dessa união, é capaz de compreender como são unidos o Pai e o Filho, na comunhão da Trindade.
       Essa comunhão não está, porém, fechada; o Filho abriu-a, quando, assumindo nossa condição humana, uniu-se a nós para fazer-nos conhecer o Pai: “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer” (Jo 1,18).
       A união que existe entre Cristo e nós é apresentada pela liturgia de hoje com a eloqüente imagem do Pastor e de seu rebanho. Celebramos o “Domingo do Bom Pastor”, aliás, um Pastor bastante peculiar, pois Ele mesmo se identifica com seu rebanho, sendo também chamado de Cordeiro: “O Cordeiro... será o seu pastor” (Ap 5,17).
       Cristo Pastor está unido ao seu rebanho, primeiramente, por sua Palavra, pelo que suas ovelhas devem escutar a sua voz. Para estarem unidas ao Pastor, as ovelhas devem ainda dispor-se ao seu seguimento (“elas me seguem”), na obediência à sua Palavra. Só isso permitirá serem reconhecidas por Ele, quando vier na glória de seu Pai (cf. Lc 9,26; 13,25-27).
       Mas esse próprio seguimento, vida nova como rebanho do Senhor, é dom que o Cristo Pastor oferece às suas ovelhas. Ele dá sua vida pelas ovelhas (Jo 10,15), dá a elas a uma vida nova, vida eterna (Jo 10,28). Recordamos, imediatamente, as palavras que o Senhor pronunciou na sinagoga de Cafarnaum, após ter multiplicado o pão no deserto: “Eu sou o pão da vida /.../ Quem consome este pão viverá para sempre” (Jo 6,48.58c). Pastor e Cordeiro, Ele se faz também Pão, alimento do rebanho.
       Afirmava o Papa São Leão Magno (retomado pelo Concílio Vaticano II): “outra coisa não faz a participação no Corpo e Sangue de Cristo, do que transformar-nos naquilo que recebemos” (S. Leão M., Sermo 63,7; LG 26). A comunhão eucarística, trazendo-nos a vida de Jesus, possibilita-nos uma união com Ele que não tem, na terra, paralelo algum. Ela é penhor, garantia de vida eterna, pela qual as ovelhas podem estar certas de nunca se perderão e ninguém vai arrancá-las da mão do Pastor (cf. Jo 10,28).
       Cumpre-se na comunhão a palavra de Jesus: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Graças à Eucaristia Cristo vem habitar em nós; e Cristo nunca está só, o Pai está sempre com Ele (cf. Jo 16,32), e o Pai é a garantia da firmeza desta união: “meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior do que todos, e ninguém pode arrancá-las da mão do Pai” (Jo 10,29). Comungando o Corpo do Senhor, todo fiel pode repetir, com São Paulo: “Tenho certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potências, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus, que está no Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). “O Pai é maior do que todos”.
       Inclusive o pecado passado não é capaz de nos separar de separar de Cristo; assim como para os santos, que “lavaram e branquearam as suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 5,14), junto de Cristo está sempre aberta para nós a fonte do perdão, da paz.
       Se nada exterior a nós pode separar-nos do amor de Deus, infelizmente, nossa vontade livre pode fazê-lo. Triste exemplo disso dá-nos a primeira leitura de hoje: “os judeus ficaram fanatizados e, com blasfêmias, opunham-se ao que Paulo dizia /.../ instigaram as mulheres ricas e religiosas e os homens influentes da cidade, provocaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé e os expulsaram do seu território” (cf. At 13,45.50). Rejeitando o anúncio da salvação, excluíram-se, por própria vontade, do caminho do perdão e da vida eterna. Pesada foi, contra eles, a sentença dos apóstolos: “Então, com coragem, Paulo e Barnabé declararam: /.../ ‘Vós rejeitais [a Palavra de Deus] e vos considerais indignos da vida eterna’ /.../ Então os apóstolos sacudiram contra eles a poeira dos pés e foram para Icônio” (cf. At 13,46.51). Jesus já alertara contra as conseqüências de tal rejeição: “Quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade que se grudou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’ Eu vos digo: no dia do Juízo, Sodoma receberá sentença menos dura do que aquela cidade” (Lc 10,10-12). À oferta máxima da salvação corresponde, quando rejeitada, o maior rigor no julgamento.
       Tal desgraça não permita que suceda conosco o Senhor, que nos instruiu com sua Palavra e vai alimentar-nos com seu Corpo. Assim seja.

Pe. Carlos Antônio da Silva.